Palavrantiga – Sobre o mesmo chão (2012)

NOTA: 2,5 ESTRELAS (MÁXIMO: 5 ESTRELAS)

A música cristã deve cumprir três funções básicas – na verdade, ao menos uma delas: edificar espiritualmente, exortar biblicamente e/ou adorar a Deus. É possível atingir os três pontos sincronamente, nem sempre é fácil encontrar compositores que o tenham feito, mas abdicar de alcançá-los é sempre um risco: o risco de simplesmente não soar cristão.

A introdução é essencial para o objeto em análise, o disco “Sobre o Mesmo Chão”, segundo trabalho do Palavrantiga – antes vieram um EP homônimo (2008) e o CD “Esperar É Caminhar” (2010). A banda foi alçada ao posto de salvadora do rock gospel, mas rejeita o rótulo, dizendo-se apenas “brasileira”, dando início ao contrassenso que marca o novo álbum.

“Somos uma banda brasileira de rock que toca na Igreja, que toca no bar, que toca na FNAC, que toca em casa”, dispara Marcos Almeida, em seu blog “Nossa Brasilidade”. Dono de um timbre de voz singular, Marcos é também o autor das boas melodias e harmonias que compõem o repertório do disco e a cabeça filosófica do grupo.

Lançado pela Som Livre, o CD é parte desta tentativa de estabelecer um crossover semelhante ao praticado em solo americano: por lá é comum ver Stevie Wonder cantar músicas de caráter cristão em rádios ditas seculares ou o Switchfoot, de letras muito veladamente cristãs, ganhar o Grammy de melhor álbum de rock gospel. Traços de uma cultura predominantemente protestante, tal qual o catolicismo no Brasil – enraizado até mesmo na fala dos que foram à missa pela última vez aos 10 anos de idade.

“Sobre o mesmo chão”, canção-tema do novo disco, é hermética em seu discurso e perfeita para representar toda a obra. Fechada em uma reflexão sobre a terra compartilhada por todos, cristãos ou não, a música pouco diz sobre a figura de Cristo – central em toda obra que pretende ser cristã – ou sobre seus ensinamentos. O caminho dúbio escolhido pelo Palavrantiga é recheado de contradições – ou erros e acertos, por que não?

“Determinado ouvinte pode se apegar mais à sonoridade em si e outro se empolgar com a mensagem. Mas ainda não sabemos como isso acontece. O fato é que nem todos vão se abrir para o aspecto transcendente da nossa arte e nem por isso a sua experiência deve ser desmerecida, pois ela também é válida”, explicou Marcos em entrevista publicada na edição 37 da versão brasileira da Billboard.

Esta incerteza relacionada à recepção dos ouvintes prejudica a constância do trabalho. Em “Antes do Final”, a mensagem confessional é clara, um pedido de perdão clássico que destoa do vazio ideológico de “Branca”. A disparidade também fica evidente em “De manhã” – um dos pontos altos – e “Rio Torto”, que trata de alma, graça e salvação de uma forma bastante oblíqua.

No campo técnico, o álbum também oscila. Depois de estabelecer uma sonoridade agradável nos dois primeiros trabalhos, produzidos por Lúcio Souza – hoje mais conhecido como SILVA –, a banda entregou a Jordan Macedo a responsabilidade de misturar novas texturas brasileiras às demais referências dos integrantes, como U2 e The Killers.

A tal mistura, no entanto, nem sempre soa homogênea. Em “Branca”, a tentativa de samba, groove e rock não funciona. “Antes do Final”, ótima em letra, melodia e arranjo, guarda boas surpresas rítmicas e uma referência esperta a um clássico de Chico Buarque – o tipo de referência sutil que “Rookmaker”, infelizmente, dispensa. Estranhamente, esta canção, apesar de figurar no disco anterior, foi relançada – a pedido da Som Livre, acredito eu.

Em poucos momentos a banda acerta o meio termo entre o que poderia servir de experiência transcendental para uns e fruição estética para outros. Soa mesmo como um grupo de rock cristão tentando não sê-lo. Nem quente, nem frio. Um disco morno, de uma banda que pode voltar a surpreender ao decidir se desvencilhar de vez da imagem cristã – onde está a real massa de público do grupo, vale lembrar – ou voltar às próprias origens e resgatar canções como “Casa”, “O amor que nos faz um” e “Feito de barro”.

palavrantiga - sobre o mesmo chão

Disco: Sobre o mesmo chão
Artista: Palavrantiga
Ano: 2012
Gravadora: Som Livre

O que ouvir:

De manhã

Antes do final

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23 Respostas para “Palavrantiga – Sobre o mesmo chão (2012)

  1. Pingback: Resgate – Resgate (1997) | O Gospel em Xeque·

  2. “Por favor, vá devagar na hora de julgar ‘irmãos’ que possuem chamados diferentes”. Jonathan Foreman da banda norte-americana Switchfoot.

    • Matheus, não se trata de “julgar”, mas de fazer uma análise do produto “música pop”, como qualquer veículo de cultura faria. A diferença é que, obviamente, por se tratar de música cristã (mesmo que pareçam tentar não sê-lo), entram na análise critérios um pouco mais subjetivos.

      Não questiono se eles são crentes ou não, se vão para o céu ou não, nada disso, questiono o conteúdo produzido, o arranjo, as composições, as letras, enfim, tudo que é palpável e DEVE ser sempre sujeitado à análise.

      • Claro, claro, concordo com você em muitos aspéctos. Só que, como foi citado a Switchfoot, achei que seria de bom tom, expor algumas palavras do Jon Foreman. Afinal quem somos nós pra julgar né Rafael? 🙂
        Achei legal a sua visão crítica, porém quando alguem se submete a expor suas opiniões, é claro que sempre vai encontrar quem concorde e quem descorde (você é ciente disso). Quero aproveitar pra dizer que sou muito fã do Alforria, assim como sou do “Palavra” e da Daniela Araújo. Foi muito bom ter encontrado essa visão, que se faz necessária nos dias de HOJE. Parabéns pelo seu trabalho. A partir de hoje vou ficar de olho! 😉

      • Valeu, cara. Este é um espaço para discussão mesmo, a ideia é esta. Que bom que entendeu o que eu disse.

        Apareça outras vezes sim. Pretendo escrever mais, o problema nestes meses de 2013 tem sido encontrar tempo!

  3. Engraçado (Não Leve Como Ofensa,por favor!) Penso que uma Banda Como Palavrantiga e Alforria (Sua Banda) Tem o Mesmo Rumo Pra Mim,Até Por que Me inspiro No ambiente de composição das duas bandas (as quais São referencias Claras Pra mim,diga-se de passagem) Qual a Sua Visão em Relação á Tentar Tocar Musicas que Falam de Convicções Cristãs em Ambientes não eclesiásticos? pergunto pois De Uns Tempos pra cá tenho me Sentido Muito Tentado e inclusive Estou Planejando e trabalhando em um projeto Musical Que Pudesse Transitar entre o que ou não Cristão(é Algo que tem Deus Falado Muito comigo…)…E O Alforria Fui Fundamental Pra que eu Chegasse A essas Conclusões sem Duvida alguma…

    • Cara, este é um caminho que Resgate e Oficina G3 fazem, o problema é que o Gospel no Brasil é um pouco estigmatizado, até mesmo por nossa formação cultural “maquiavélica” – no sentido da divisão entre bem e mal.

      O importante é não perder a clareza e a essência da mensagem cristã, não importando se você o faz como o Stênio Marcius ou como o Oficina G3. Eu, particularmente, acho que há subliminaridade demais no meio cristão hoje. Por isso optei por me tornar mais transparente em minhas canções.

      Veja depois o http://musica.rafaelporto.com

  4. Sim Agora Está mais Claro…Obrigado pelos Esclarecimentos,Só Quero Soar Diferente De Todo Esse Lixo que Vejo Na mídia Dita Gospel,Pra Isso Pensei que o Caminho Seria Remar Contra as Idéias de Entretenimento Para Evangélicos Que agente Vê por ai.Já Havia Conferido as suas novas musicas Ainda continuo com a ideia de que Isso Pode Soar em Uma Casa de Show Não Cristã(Hoje Não Duvido de mais nada!),Quero ter a Solidez e Sabedoria que Pessoas Como Você,Stenio Marcius,Eduardo Mano,Palavrantiga,Aeroilis,Tanlan,Os Oitavos,Diego Venâncio,Resgate,João Alexandre e Muitos outros…Se Puder Manter Essa Essência que é Cristo Afinal Então Sei que Estou no caminho Certo!

  5. O que é mais legal (e vocês vão concordar comigo) é que, assim como eu e o chará aí, a galera tá acordando pra fazer algo diferente sem perverter a essência do Cristianismo (como você mesmo diz Rafael).
    Sinceramente acho que tá nascendo no nosso país uma música cristã com uma identidade particular (além do fato de ser cristã). O “gospel” de hoje já está muito cheio de “jargões” e melodias enfadonhas; uma coisa muito “formal” que todo mundo já está cansado de ouvir.
    Acho que Deus tem muito a fazer através das nossas vidas com esse “olhar diferente” que temos o privilégio de ter!

    • Obrigado Por me Incluir Nessa Visão Que nada Mais é que do que a visão Bíblica da coisa toda…Tendo em vista esses Grandes mestres Aos Quais Não sou digno nem de Amarrar o All’star (rsrsrs…) Quero Mostrar ao Mundo o Deus Verdadeiro,não é esse Deus Que está Sendo Mostrado na TV e nos Jornais!

  6. opaa papo de gente que pensa ..rsrsr
    eu concordo com tudo dito por vcs ..e faço parte dessa geração de crentes que ve o mundo com outros olhos..
    sem essa grande e escura venda que tem tapado a visão da grande massa de Cristãos no Brasil …

  7. a realidade e que hj no Brasil oq temos de artistas gospeis sao na grande maioria uma agua chula ..de produtoras em busca de lucro …nao se tem essência..nao se tem mais inspiração ..ainda bem q ainda existem bandas e artistas como daniela araujo ,leonardo gonçalves…joão alexandre…danni distler ..palavra antiga …e claro alforria entre outras poucas bandas q tem uma identidade crista pura e clara..!!!

  8. Pra início de conversa, muito bom o blog. A música cristã necessita realmente de “upgrade”. É tudo muito parecido, sem criatividade, sem mensagem, principais motivos que me levaram a ouvir o som do Palavra antiga. Conheço todos os trabalhos da banda e suas letras fazem parte do meu vocabulário diário por assim dizer, de tanto que os escuto.
    Realmente os pontos colocados sobre o “desequilíbrio” desse álbum são consideráveis, principalmente se tratando de uma banda cristã. De fato há contradições entre os trabalhos apresentados pela banda e o seu pensamento (de não se considerar uma banda cristã, mas uma banda de rock nacional formada por cristãos que levam em suas letras, mesmo que de forma muito subliminar no último trabalho, mensagens com princípios cristãos).
    Mas é de se considerar que a essência da banda é essa mistura um tanto confusa de ritmos.
    Contudo, avaliando a capacidade criativa e a identidade inconfundível da banda, esse trabalho poderia ter sido mais plausível, ponto que meu irmão, que acompanha o trabalho da banda desde o início, praticamente, fez questão de enfatizar ao me apresentar esse último album.
    No mais, parabéns pelo trabalho!

  9. hahaha to rindo desta análise.
    Você está falando da mesma banda é? Das mesmas músicas?
    Primeiro que “gospel music” é um estilo musical nascido no EUA. Segundo , o aqui voce chama de gospel foi a absurda confusao que fizeram decadas atrás.O “rótulo gospel” aqui no Brasil está errado.
    Estudando um pouco voce verá que está totalmente fora .

    Um exemplo : Temos um estilo/ritimo chamado samba.Dependendo das raizes do compositor e do letrista eu posso ter uma letra que fala de Deus , Jesus e da biblia ou posso ter uma letra falando de entidades da Umbanda. Isso não é gospel ou umbanda music.Isso continua sendo Samba. Arte é arte. na boa,É uma das primeiras coisas que voce poderia entender.

    A graça de Deus e a alegria da salvaçao podem ser expressa de diversas maneiras :pregações, oração, poesia, música e etc…isso nao tem nada a ver com “Gospel de Gezuis neo pentecostal.

    • Hahahah
      Valeu pelo comentário, Júlio. Ri com o “gezuis neo pentecostal”.
      🙂

      Eu conheço a definição do gênero “Gospel”, o americano, de raiz. A ideia do texto era falar mesmo do “gospel”, em minúsculo, referente ao mercado no qual o Palavrantiga, querendo ou não, está inserido.

      Por isto mesmo eu abro falando de “música cristã” e depois cito “rock gospel” como um rótulo, porque, infelizmente, é assim que somos catalogados pela SomLivre, pela MK, pela Sony, etc.

      Paz!

  10. Pingback: Convite à coragem | the.verb·

  11. Olá, me perdoem a minha ignorância, mas gostaria de saber qual a referencia é essa à Chico Buarque na música Branca? as referencias feitas na música Rookmaker são impossíveis de não notar, nem precisa conhecer os personagens, mas percebi e pude pesquisar e encontrar tais referencias, mas como não conheço as músicas de Chico Buarque não sei nem por onde começar, é possível alguém me ajudar? agradeço desde já.

      • Cara, mto obrigado pela agilidade e atenção dispensada pra me responder. É preciso ter lugares como esse para discutirmos e ajudarmos uns aos outros, parabéns pela iniciativa e mais uma vez, obrigado.

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