Daniela Araújo – Daniela Araújo (2011)

NOTA: 4 ESTRELAS (MÁXIMO: 5 ESTRELAS)

De todas as questões intangíveis da natureza humana, o Tempo é de longe a mais controversa. Há milhares de anos discutimos nascimento, envelhecimento e morte, depositando na fé cristã a certeza da Eternidade. A Bíblia é repleta de reflexões temporais que denotam o quanto debater este tema é gesto inerente à nossa existência.

Poucos poetas e compositores souberam retratar tão bem a alma humana e todas as suas idiossincrasias. Daniela Araújo, 28 anos, parece ter aprendido a usar o tempo a seu favor. Após três longos anos de produção, lançou em 2011 seu primeiro disco, que não leva seu nome à toa: das 14 canções gravadas, 12 são de autoria própria.

Frequentando estúdios desde os três anos de idade, Daniela cresceu em uma família de cantores, compositores, instrumentistas e produtores musicais. Filha de Jorge Araújo — autor de “Cicatrizes”, uma das canções mais clássicas do movimento pentecostal brasileiro — e Eula Paula, integrou o grupo infantojuvenil “Turma do Barulho” ao lado dos irmãos até a adolescência.

Graduanda em Música, soube mesclar a experiência do meio em que vive com os anos de ouvinte. O número de referências é vasto, bem como a quantidade de técnicas vocais aplicadas nos arranjos do disco — todos pensados ao lado do marido Leonardo Gonçalves, notável intérprete da música cristã contemporânea, e do irmão Jorginho Araújo, coprodutores do trabalho. As nuances de Daniela passeiam facilmente entre o rock, o indie pop e o R&B.

Entre o emaranhado de detalhes do álbum — uma orquestra gravada em Praga, na República Tcheca, e um coral de idosos, por exemplo — é possível captar excertos de Coldplay, Imogen Heap (“Por Ti”, a mais inovadora do álbum, poderia estar facilmente em um trabalho da inglesa) e Yael Naim — citando apenas as influências mais óbvias descritas pela própria Daniela em entrevista. O disco é um retrato atual do que restou da boa música pop nos últimos anos e uma aula contínua de arranjo vocal feminino — melismas, yodelings, falsetes…

O tempo é tema central da obra, apresentado com originalidade na canção “Milímetro”, logo na abertura do disco. Os versos “como um milímetro de um segundo / é a minha existência no mundo / tudo está a se repetir”, de tão ricos, lembram Leminski e seu “Lindésimo de segundo”. O tom intimista da produção, ora abusando da ambiência criada pelas cordas, outrora das guitarras em reverberação, reforça o tom filosófico das questões levantadas ao longo do trabalho: o ouvinte é convidado a ruminar as letras antes de digeri-las. “O tempo não volta, nem pode parar / mas me dá a chance de recomeçar / o tempo é tempo, não pode curar”, devaneia em “Tempo”.

A canção, ao lado de “Guia-me” e “Dono dos meus dias”, é um bom exemplo de como o repertório cristão de versos pode ser expandido sem haver infrações teológicas. Fugindo do lugar comum e das rimas luz/cruz, salvação/perdão, entre tantas outras perpetuadas no imaginário coletivo dos crentes, o disco inova, mas segue firme e fiel ao conteúdo bíblico — neste ponto, só “Dimensão da Luz” dá uma leve derrapada, muito mais pela frase que a intitula.

E como quem reconhece que a evolução musical é resultado do acúmulo das experiências ao longo do tão falado tempo, Daniela dá tom saudosista ao trabalho em algumas oportunidades. “Volta” conta com um quarteto formado por marido, sogro e amigos, enquanto “Todo louvor” tem presença do grupo “Orvalho de Hermon”, formado por antigos membros da Assembleia de Deus da Lapa. Contrastes construídos por quem gastou anos amadurecendo ideias durante a fase de pré-produção.

Talvez pelo grande número de canções distribuídas em quase 60 minutos, o álbum não consegue manter o bom nível de acertos em todo o percurso. É natural que haja espaços para o ouvinte respirar em músicas como “De D-s” e “Gratidão”, que não chegam a ser ruins — na verdade, estão acima da média no gospel atual — apenas destoam muito do ritmo do disco.

Entretanto, em um meio abarrotado de cantoras femininas com voz agressiva, agudos exagerados, letras mimeografadas e arranjos pasteurizados, Daniela Araújo traz frescor e suavidade; eleva o gênero a um patamar ímpar, pouco encontrado até mesmo na música secular brasileira — Sandy? Pitty? Quem usa tantos efeitos em reverse como em “Por Ti”? — e na cristã internacional. Pop assumida, soube se revestir de elementos-surpresa capazes de cativar até o ouvinte mais desatento.

Um clássico instantâneo

Capa do disco Daniela AraújoDisco: Daniela Araújo
Artista: Daniela Araújo
Ano: 2011
Gravadora: Sony Music

O que ouvir:

Por Ti

Milímetro

Tempo

Guia-me

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