Resgate – Resgate (1997)

NOTA: 4,5 ESTRELAS (MÁXIMO 5 ESTRELAS)

Nos primeiros acordes de “Liberdade”, a guitarra em tremolo anuncia: estamos em um ambiente novo, desconhecido para a música brasileira. É assim que “Resgate”, quarto álbum da banda homônima, se revela. O disco curto, de apenas 27 minutos, lançado em 1997, apresenta aos brasileiros mais desatentos o doce sabor do britpop, gênero em efervescência na Inglaterra nos anos 90.

No mesmo ano, o Blur, um dos criadores do gênero, lançava o hit máximo de sua carreira, “Song nº2”, o Oasis começava seu descenso musical ocasionado pelos conflitos dos irmãos Gallagher, e o Radiohead abria a cabeça para o experimentalismo, dando contornos iniciais ao hoje aclamado alternative rock.

A comparação com as bandas londrinas se faz necessária para explicar a discrepância do Resgate com a produção nacional. Por aqui, Titãs tentavam se reinventar via acústico MTV; Paralamas e Skank acertavam a mão nos refrãos de pop rock; enquanto Raimundos e Mamonas Assassinas debochavam do gênero.

O experimentalismo passava distante dos grandes eixos do rock e das majors, com representação tímida do Pato Fu em Minas Gerais, Sepultura em carreira internacional e Chico Science e seu manguebeat. O Resgate, banda formada em São Paulo, usou a paixão pelo rock londrino — evidente nos lançamentos posteriores — como pretexto para arriscar, com a segurança de quem tinha público cativo nas igrejas brasileiras.

Escolhendo uma variedade de efeitos de guitarra pouco comuns até então, evitando a distorção tão marcante no hard rock dos trabalhos anteriores, “Resgate” traz uma sonoridade nova à música nacional — antecipando o que o Skank faria só em 2003 com o cultuado “Cosmotron“. Torna-se relevante não pela representação no meio evangélico, mas pela ousadia de quem se arrisca em um gênero em plena ebulição – e aqui cabe um elogio a Paulo Anhaia, hábil na captação de timbres novos à época, mas capazes de resistir ao tempo.

Ainda hoje o trabalho soa atual: parte pelos arranjos, parte pelas letras ousadas – motivo de forte rejeição no meio evangélico em 97. O disco traz muitos acertos, reinaugurando uma linha pensante de poesia outrora perdida no gospel brasileiro. A inclusão de sinônimos simples no léxico cristão – “verdade” no lugar de “palavra de Deus”, “o Filho” no lugar de “Jesus” – se tornou uma marca registrada da banda. Até hoje outros grupos se arriscam nesta linha tênue, na qual nem mesmo o Resgate consegue traçar uma reta.

“Liberdade” e “E daí?” trazem na caixa da bateria as rufadas que marcaram hits internacionais, a exemplo de “Don’t look back in anger” e “Wonderwall”, além de acertarem a mão na dose de criatividade lírica – sem deixar de lado a essência da mensagem cristã. “Aparência, transparência / Quem vê cara não vê o que só Deus pode ver”, enfatiza José Bruno, autor das canções e de grande parte das levadas de guitarras — o grande destaque do álbum, dignas das bandas de rock dos anos 60.

O álbum raramente comete deslizes. Talvez peque mais pela dose excessiva, como em “Jantar”. Contudo, “abrir a porta do jantar / pra verdade e a vida entrar” são versos perfeitamente compreensíveis e facilmente captados por quem está dentro da igreja – considerando também o quão árduo é inovar nas letras cristãs. Nem mesmo as duas canções em inglês, com ótimas letras, chegam a comprometer o andamento do CD. “Life is smoke that will disappear when the wind blows”, canta parafraseando o Salmo 102.

De ruim mesmo, só o curtíssimo tempo de duração do trabalho. Longo o suficiente para cativar o ouvinte em melodias arrebatadoras e curto o bastante para deixar-nos com o desejo de procurar mais obras do gênero – “Em todo lugar” é uma das canções mais belas da música cristã, ainda não vi outra com guitarras tão bem produzidas. Expressivo para o rock nacional, mesmo não reconhecido desta maneira, o álbum merece um lugar no panteão dos grandes discos por tomar a dianteira do britpop em terras tupiniquins com competência e criatividade.

resgate - capa

Disco: Resgate
Artista: Resgate
Ano: 1997
Gravadora: Gospel Records

O que ouvir: O DISCO INTEIRO!

E daí

Terceiro Dia

Em Todo Lugar

Antes

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